Fotomontagem de Leila Gomes
terça-feira, 18 de abril de 2017
sexta-feira, 14 de abril de 2017
É urgente um poema…
É urgente um poema…
Encanto do meu
canto...
Glicínia de um poema,
que ainda ninguém
escreveu,
porque a
"poeta" ultrapassa as barreiras
de todas as metáforas
conhecidas
e de todas aquelas que
ainda não foram inventadas.
E é urgente um
poema!...
…
E tu serás sempre
"poema",
na alma e na carne
na fronteira do sonho
que me alimenta os
dias,
mesmo antes de seres
mulher inteira,
bela e exacta…
Alexandre
de Castro
Lisboa,
Abril 2017
2017 04 14
quinta-feira, 6 de abril de 2017
sábado, 1 de abril de 2017
Carl orff -Carmina Burana /Koninklijke Chorale Cæcilia
Quando o
sentido das coisas é uma nuvem a arder em chamas
Quando o sentido das coisas é uma nuvem a arder
em chamas, passo por aqui e deixo-me levar pelo encanto da música, na onda
empolgante dos sons e das vozes, e desato os nós do pensamento, que fica à
solta, sem qualquer freio. Descubro, então, que o amor é uma coisa complicada,
porque há sempre uma surpresa em cada esquina da vida. É sempre igual e sempre
diferente, seja ele trágico, romântico e até cómico, circular ou poliédrico,
amor livre ou amor estável, de toda uma vida. Uma coisa é, certamente: é o ninho
de todos afectos, se pretendermos defini-lo na sua amplitude universal e, numa
outra dimensão, será aquele amor contagiante, que tem a sua máxima expressão
física no beijo e no sexo.
Pois é, até aqui nada de novo, dirá o leitor. O
problema está nas tempestades e nos terramotos, que deixam feridas profundas. É
bem verdade, direi eu, mas isto também faz parte do amor, porque nada existe,
sem o seu contrário.
E, depois, há os amores impossíveis, marcados pela condição e pela contradição. E, para estes, não existe antídoto.
E, depois, há os amores impossíveis, marcados pela condição e pela contradição. E, para estes, não existe antídoto.
Alexandre
de Castro
2017 04 01
quinta-feira, 30 de março de 2017
É este o fulgor do instante…
É este o
fulgor do instante…
Há rostos que se escondem no silêncio e na ausência
e eu apenas os posso ver através da minha
cegueira.
É este o fulgor do instante,
quando o instante se revela em toda a sua
plenitude.
É de ti, que há-de vir o último sopro de vida
que me liberte da escuridão dos dias…
Alexandre de Castro
O ziguezague da água _ Fotografia de Milú Cardoso (**)
terça-feira, 28 de março de 2017
A grande noite do deserto _ Maria Azenha
![]() |
A Tentação de Santo Antão _ Salvador Dali
|
A grande
noite do deserto
Um segundo é suficiente para saltar fora
Ou ir à Gulbenkian ver o Almada ,o Lorca, o
Cesariny
Tocar o anjo maldito da Memória
E abrir uma brecha nos viveiros do Poder.
Estou farta de corruptos,de cibernéticos, de
tecnocratas
do Amor encontrado em marinheiros de fogo, em
narcóticos democráticos
de ficheiros encriptados
no Medo,
no Terror!
Há Inaugurações de montras com Montanhas ao pescoço,
e ar condicionado em gabinetes altamente presos,
e toda esta loucura procurando crianças e
alfinetes em bombas.
Os núncios apostólicos do globo olham o mundo
através de sargetas, de swings de estrume com
flores,
de ficheiros anónimos, de trapézios, de bonecos
encriptados
que bebem copos e dançam com mulheres em noites
seráficas.
Nietzsche pede socorro a todos os poetas
torturados pela realidade!
Há um tratado alquimista escondido nos bolsos
dos robots.
Há milhões de versos por fazer enrolados em
mochilas de Rimbaud.
As epopeias do século XXI vertem enxofre e ouro.
Milhares de Criaturas saem do nada. Ocupam
postos de trabalho em tigelas embotadas.
Seus olhos muito abertos e muito cerrados
Voltam-se para a direita e para a esquerda.
Dormem à hora programada com leite encriptado no
telemóvel.
É preciso sacar unhas ao globo para compor
música atómica!
Ele é uma metralhadora instalada em toda a
parte. Em qualquer lugar.
Comemos carne e peixe ao almoço em grandes
contentores,
Mastigamos bifes sintéticos, palitos de la Reine
com aplicações nos semáforos.
É urgente gritar
contra a violência das cidades,
Puxar galáxias para baixo em estado de graça.
Minha alma precisa de encontrar uma árvore a
sério
e com ela treinar os pulmões a cores.
Estou farta de genuflexões bondosas,de senhores
da misericórdia,
de anjos com asas anunciando esperança e amor!
Sou da estirpe dos pobres, dos afogados, dos que
sofrem calados,
dos biliões de vozes sem nome…
Isto é terrorismo em arranha-céus de dor!,
Terrorismo que reduz o indivíduo a um bocado de
caca.
Os computadores atravessam o Tejo e outros rios
da Terra,
Anunciam viagens de escravos de um lado para o
outro.
São grandes transatlânticos do sofrimento em
ferro, grandes filmes do crime
com pessoas que já não conhecem sonhos…
E vivem em grandes explosões demográficas.
Mozart caiu cedo demais na vala. Estava fora do século.
Há praças que se transverteram em campos-santos
de gente anónima,
bandos metralhados por ordens a qualquer dia e hora.
Em qualquer ponto do espaço as unhas dos astros
ferraram-se no solo .
Vieram com Baudelaire para anunciar a
catástrofe.
Vivemos em conglomerados de cidades embalsamadas
em gelo e dor:
Múmias sempiternas com suas fardas de cimento,
obedientemente cegas.
O século escreve o novo livro da história:
“A grande noite do deserto”
©maria azenha
***«»***
Um poema arrasador, brutal, altamente subversivo
para o sistema das castas e para a nossa civilização carnavalesca e que
ultrapassa todas as fronteiras poéticas, para se erguer como um violento e
incisivo manifesto panfletário, capaz de corroer as torres de marfim do poder.
Alexandre de Castro
***«»***
Os
melhores de 2016: poesia
Dezembro 29, 2016
A casa de
ler no escuro,
de Maria Azenha
A
poesia dessa portuguesa de Coimbra chegou-me através da organização de uma das
edições do caderno-revista 7 fases. E,
depois, aconteceu de ler este livro editado no Brasil. Trata.se de uma poesia
com dicção muito individual e atenta às imagens do mundo social. Numa
conjuntura em que esse universo nos parece cruel, perigoso e uma prova
definitiva de que o homem tem (an)dado
errado no mundo, é possível ainda extrair, do acaso ou das situações mais
invisíveis algum alento para o fim. A estética de Maria Azenha cumpre esse
papel de ser uma lufada de ar numa existência árida.
In LETRAS IN.VERSO E RE.VERSO
***«»***
O
livro de poemas, de Maria Azenha, A casa
de ler no escuro, (editora Urutau), foi incluído, pela revista LETRAS
IN.VERSO E RE.VERSO, na lista dos dez melhores livros de poesia, publicados no
Brasil, em 2016.
Tive
a honra de ter sido convidado pela autora a deixar um pequeno apontamento no
respectivo prefácio, assim como receber das suas mãos um exemplar, com uma
simpática dedicatória.
2017 03 28
domingo, 26 de março de 2017
sábado, 25 de março de 2017
Poema de Sónia M. _ [celebração de um regresso (*)]
![]() |
| O Beijo _ Gustav Klimt _ 1907 e 1908 |
Dar-te-ia
uma noite clara
Isenta de gritos e no
Zelo das margens do rio
Isenta de gritos e no
Zelo das margens do rio
Que te
banha a alma, beijaria
Um a um
os teus medos. Por
Entre a
sede das mãos, escorreria
A verdade
que entregámos aos pássaros.
Instante
de luz a ofuscar os dias.
Nesga de
loucura a guardar os sonhos.
Deitaria
às águas um verso branco.
Astro
fecundo nos meus verdes olhos.
Mistério
encostado ao céu da boca do
Encanto,
com que envolves
As minhas
mãos vazias.
Morresse
a lonjura no abraço do verso.
Antes não
fosses um destino
Sem
tempo. Pátria perdida... à qual nunca regresso.
Sónia M
(*) Nota do editor.
Amabilidade da autora.
***«»***
Que belo é
este poema, que fala da "verdade
que entregámos aos pássaros", do “Astro fecundo nos meus verdes olhos”, que tanto encantam e
seduzem, do “Mistério encostado ao céu
da boca do Encanto”, mas que arrasta a sombra negra de um pesadelo
amargo: "Antes não fosses um
destino/Sem tempo, Pátria perdida… à qual nunca regresso”.
Um poema que é um diamante. E não é pela sua intenção declarada, mas sim pela sua
exigente construção metafórica e lexical. Há nele verdadeiras preciosidades
poéticas, no jogo hábil das palavras e das metáforas, que só os grandes poetas
conseguem exprimir..
2017 03 19
sábado, 4 de março de 2017
sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017
Nos destroços da demência e da memória…
Nos destroços da
demência e da memória…
E
eu, no meio da minha cegueira,
entre
as linhas que nos separam,
digo-te
esta mentira, que reclamas:
“já
me esqueci de ti...
Nunca
te amei, desde que te vi.
Nem
as feridas eram verdadeiras,
nem
os beijos ardiam nos meus lábios,
nem
os poemas, que te dediquei, eram meus.
Tudo
era falso”.
…
E,
agora, nos destroços da demência e da memória,
sofro
com a verdade, porque sempre te amei…
Alexandre
de Castro
Fevereiro de 2017
sexta-feira, 27 de janeiro de 2017
terça-feira, 17 de janeiro de 2017
Como tu dirias, meu querido Poeta _ Maria Azenha
![]() |
Para os gregos antigos, os poetas eram aqueles que estavam mais próximos dos deuses
|
Como tu dirias,
meu querido Poeta
No inverno vêem-se cães
nas avenidas
que passeiam homens com trelas invisíveis.
E não sei porque fixo esta imagem que teima em perseguir-me.
Procuro desde o começo dar-lhe um sentido,
sem lençol nem cama nem moralismos.
( Apre! Estou constipada, já dei mais um espirro!)
Vejo nas ruas flores prisioneiras em casas
e bancos de pedra onde se sentam, sem ninguém ver, beijos de neve…
Como tu dirias, meu querido Poeta,
que me ensinaste a ver e retirar a venda dos olhos,
,que me entregaste a chave dos mistérios,
,que bebeste à mais alta existência do nada,
,que cantaste a glória de vozes cansadas,
Tu,um vaso de néctar bebido por uma só Palavra,
numa só Hora…
Tu,as manhãs lisas do meu silêncio eterno,
Tu,a quem dedico estas linhas a partir de um precipício…simplesmente belo…
Tu, Tu, Tu…
“Feliz,o que sem ódio, se retira do mundo, apertando ao peito um amigo
e goza com ele o que os homens não sabem nem suspeitam,
o que atravessa na noite o labirinto do coração.”(*)
Ah,somos crianças sentadas no passeio a jogar aos dados…
E nos damos visões,de graça…
que passeiam homens com trelas invisíveis.
E não sei porque fixo esta imagem que teima em perseguir-me.
Procuro desde o começo dar-lhe um sentido,
sem lençol nem cama nem moralismos.
( Apre! Estou constipada, já dei mais um espirro!)
Vejo nas ruas flores prisioneiras em casas
e bancos de pedra onde se sentam, sem ninguém ver, beijos de neve…
Como tu dirias, meu querido Poeta,
que me ensinaste a ver e retirar a venda dos olhos,
,que me entregaste a chave dos mistérios,
,que bebeste à mais alta existência do nada,
,que cantaste a glória de vozes cansadas,
Tu,um vaso de néctar bebido por uma só Palavra,
numa só Hora…
Tu,as manhãs lisas do meu silêncio eterno,
Tu,a quem dedico estas linhas a partir de um precipício…simplesmente belo…
Tu, Tu, Tu…
“Feliz,o que sem ódio, se retira do mundo, apertando ao peito um amigo
e goza com ele o que os homens não sabem nem suspeitam,
o que atravessa na noite o labirinto do coração.”(*)
Ah,somos crianças sentadas no passeio a jogar aos dados…
E nos damos visões,de graça…
© maria azenha
(*) Goethe
3 de Janeiro de 2017
***«»***
Os poetas são os matemáticos
que desenham a curvatura do amor na esfera armilar.
Os poetas são os físicos
que melhor conhecem as leis da atracção universal
e os segredos dos astros.
São os alquimistas
que tudo transmudam em ouro e em prata.
São os únicos humanos
que os deuses imitam, para sobreviver.
Por isso, são imortais, na alma e no pensamento,
porque os seus poemas, levados pelo vento,
atravessam a espessura e a escuridão do Tempo.
que desenham a curvatura do amor na esfera armilar.
Os poetas são os físicos
que melhor conhecem as leis da atracção universal
e os segredos dos astros.
São os alquimistas
que tudo transmudam em ouro e em prata.
São os únicos humanos
que os deuses imitam, para sobreviver.
Por isso, são imortais, na alma e no pensamento,
porque os seus poemas, levados pelo vento,
atravessam a espessura e a escuridão do Tempo.
Alexandre
de Castro
***
Querida “poeta”: um poema magnífico, com um mistério
para os poetas decifrarem.
sábado, 26 de novembro de 2016
Para Fidel Castro…
Para Fidel Castro…
As
árvores ficaram despidas e nuas
quando
a tua voz se calou na sombra da noite
e os
astros incandescentes se apagaram
ouviram-se
os pássaros pendurados nos alpendres
e um
relâmpago riscou o céu
da
Serra Maestra até Havana
a
iluminar o caminho da glória
da tua
marcha heróica e triunfal…
Agora,
junto a tua voz à minha memória
e à
memória da voz do companheiro Che Guevara,
o outro
astro incandescente da nova aurora
o outro
herói da gesta revolucionária
que
acendeu em nós a chama da liberdade
e que
morreu lutando pelo sonho que sonhou…
…
Hasta siempre, comandante Fidel Castro…
Alexandre de Castro
Lisboa, Novembro de 2016
domingo, 20 de novembro de 2016
Agarrei o beijo…
Agarrei
o beijo…
agarrei o beijo
na volatilidade do ar
e beijei o beijo
como se te beijasse a ti
soprado pelos teus lábios
vinha no enlevo do carinho
e aqueceu o que em mim já
estava frio
e depois voou
levando o meu beijo
invertendo o caminho
para chegar ao fim do seu
destino
um destino que será o meu…
Alexandre de Castro
Lisboa,
Novembro de 2016
sexta-feira, 18 de novembro de 2016
Homo erectus
Homo erectus
Foi através da mão
que ganhaste o pensamento, oh
Homem!...
Lá para trás do tempo da
escuridão
enquanto nascia a aurora
e muito depois de seres bípede
a habitar o chão…
Não sei se o milagre
pertence a Deus ou à Natureza
e se o mérito de começares a
articular os sons
te pertence por inteiro
e é só teu…
Nada iguala esse enorme feito
de te libertares do mundo
irracional
e ganhares o mundo da “razão”.
Ficou escrito nas estrelas
que nascera a Humanidade
e o Tempo começou a ser contado
pelo ritmo dos teus passos
e pelos inventos das tuas mãos…
Disseram os anjos, entre si,
que começara a civilização…
Alexandre de Castro
Lisboa,
Novembro de 2016
terça-feira, 18 de outubro de 2016
Máscara carnavalesca…
Máscara
carnavalesca…
Esqueci-me do meu fato de
fantasias
neste Carnaval em que me
envolvo.
Não afivelei a máscara
ao rosto de todos os dias…
E como eu me sentiria estranho
no meio daquela gente
mascarada!
Não me reconheceria no meu
rosto verdadeiro…
Todos olhavam para mim
por certo revoltados
por eu usar a máscara
com que amanheço todos os dias.
Máscara real
colada à minha pele e aos meus
sentidos
que se ri na alegria
e que chora nos prantos
consentidos.
Máscara que faço e desfaço, a
meu belo prazer
nas contas que eu faço com a
vida…
Alexandre de Castro
Lisboa, s/ data
(Provavelmente do início da
década de oitenta, do século passado).
Recuperado do esquecimento em
Outubro de 2016. Foi um dos meus primeiros poemas.
domingo, 14 de agosto de 2016
POEMA: DESCRIÇÃO DA GUERRA EM GUERNICA _ Carlos de Oliveira [seguido por uma nota crítica].
DESCRIÇÃO DA
GUERRA EM GUERNICA
I
Entra pela janela
o anjo camponês;
com a terceira luz na mão;
minucioso, habituado
aos interiores do cereal,
aos utensílios
que dormem na fuligem;
os seus olhos rurais
não compreendem bem os símbolos
desta colheita: hélices,
motores furiosos;
e estende mais o braço; planta
no ar, como uma árvore,
a chama do candeeiro.
II
As outras duas luzes
são lisas, ofuscantes;
lembram a cal, o zinco branco
nas pedreiras;
ou nos umbrais
de cantaria aparelhada; bruscamente;
a arder; há o mesmo
branco na lâmpada do tecto;
o mesmo zinco
nas máquinas que voam
fabricando o incêndio; e assim,
por toda a parte,
a mesma cal mecânica
vibra os seus cutelos.
III
Ao alto; à esquerda;
onde aparece a linha da garganta,
a curva
distendida como
o gráfico dum grito;
o som é impossível; impede-o pelo menos
o animal fumegante;
com o peso das patas, com os longos
músculos negros; sem esquecer
o sal silencioso
no outro coração:
por cima dele; inútil; a mão desta
mulher de joelhos
entre as pernas do touro.
IV
Em baixo, contra o chão
de tijolo queimado,
os fragmentos de uma estátua;
ou o construtor da casa
já sem fio de prumo,
barro, sestas pobres? Quem
tenta salvar o dia,
o seu resíduo
de gente e poucos bens? Opor
à química da guerra,
aos reagentes dissolvendo
a construção, as traves,
este gládio,
esta palavra arcaica?
V
Mesa, madeira posta
próximo dos homens: pelo corte
da plaina,
a lixa ríspida,
a cera sobre o betume, os nós;
e dedos tacteando
as últimas rugosidades;
morosamente; com amor
do carpinteiro ao objecto
que nasceu
para viver na casa;
no sítio destinada há muito;
como se fosse, quase,
uma criança da família.
VI
O pássaro; a sua anatomia
rápida; forma cheia de pressa,
que se condensa
apenas o bastante
para ser visível no céu,
sem o ferir;
modelo de outros voos: nuvens;
e vento leve, folhas;
agora, atónito, abre as asas
no deserto da mesa;
tenta gritar às falsas aves
que a morte é diferente:
cruzar o céu com a suavidade
dum rumor a sumir-se.
VII
Cavalo; reprodutor
de luz nos prados; quando
respira, os brônquios;
dois frémitos de soro; exalam
essa névoa
que o primeiro sol transforma
muma crina trémula
sobre pastos e éguas; mas aqui
marcou-o o ferro
dos lavradores que o anjo ignora;
e endureceu-o de tal modo
que se entrega;
como as bestas bíblicas;
ao tétano ao furor.
VIII
Outra mulher: o susto
a entrar no pesadelo;
oprime-a o ar; e cada passo
é apenas peso: seios
donde os mamilos pendem,
gotas duras
de leite e medo; quase pedras;
memória tropeçando
em árvores, parentes,
num descampado vagaroso;
e amor também:
espécie de peso que produz
por dentro da mulher
os mesmos passos densos.
IX
Casas desidratadas
no alto forno; e olhando-as,
momentos antes de ruírem,
o anjo desolado
pensa: entre detritos
sem nenhum cerne ou água,
como anunciar
outra vez o milagre das salas;
dos quartos; crescendo cisco
a cisco, filho a filho?
as máquinas estranhas,
os motores com sede, nem sequer
o espírito das minhas casas;
evaporaram-no apenas.
X
O incêndio desce;
do canto superior direito;
sobre os sótãos,
os degraus das escadas
a oscilar;
hélices, vibrações, percutem os alicerces;
e o fogo, veloz agora, fende-os, desmorona
toda a arquitectura;
as paredes áridas desabam
mas o seu desenho
sobrevive no ar; sustém-no
a terceira mulher; a última; com os braços
erguidos; com o suor da estrela
tatuada na testa.
Carlos
de Oliveira
(1921-1981)
Carlos
de Oliveira, escritor e poeta neo-realista, escreveu este vigoroso poema, ancorando-se nas
assombradas figuras da célebre tela de Picasso, para descrever a tragédia do
massacre de Guernica, na tarde de 26 de Abril de 1937, perpetrado pela Legião
Condor, corpo militar este constituído por várias esquadrilhas de modernos
aviões alemães e respectivos tripulantes, e que Hitler enviou em auxílio de
Franco, logo no início da Guerra Civil de Espanha.
Iniciou-se aqui uma nova fase na estratégia da guerra, a fase dos bombardeamentos intensivos de populações civis, os chamados bombardeamentos de saturação, conforme a nomenclatura usada pelos estrategas de Goering, e que tiveram trágica continuidade, logo a seguir, na II Guerra Mundial.
O poema de Carlos de Oliveira é um poema consistente, pesado no ritmo e milimetricamente preciso no plano descritivo do tema, obedecendo assim ao cânone da corrente literária neo-realista.
Ler o poema, tendo a memória fixada na figuração do quadro de Picasso, permite atingir o cume da percepção poética, quer captando a violência das palavras (“motores com sede”, “lixa ríspida”, “casas desidratadas”, “cal mecânica”, “sal silencioso”, “o gráfico de um grito”) , quer visionando o horror da barbárie perpetrada a sangue frio sobre um povo pacífico.
É através da tela de Picasso, que Carlos Oliveira exibe esse horror, plasmado em palavras, fazendo desfilar o camponês “habituado aos interiores do cereal", mas atónito, pois “os seus olhos rurais/não compreendem bem os símbolos/desta colheita: hélices/motores furiosos”; o construtor de casas “já sem fio de prumo” e o carpinteiro que talhou a mesa “com amor… ao objecto que nasceu/para viver na casa”. E que dizer do cavalo ferido e daquela mulher com “o susto a entrar no pesadelo” e com “seios/donde os mamilos pendem,/gotas duras/de leite e medo; quase pedras”.
Este processo de descrever um acontecimento, socorrendo-se das figuras pictóricas, tal como acontece neste poema, também foi ensaiado em prosa, com êxito, por Saramago, no capítulo introdutório do “Evangelho segundo Jesus Cristo”, descrevendo e inserindo literariamente, segundo a tradição bíblica, as personagens que presenciaram a cena da crucificação, e tal como aparecem figuradas num óleo renascentista.
Este é um poema de antologia, magnífico na forma e na palavra, belo nas imagens e duro no protesto e na indignação. É de guardar para reler. Mas, ele só pode ser entendido inteiramente, conhecendo a moldura histórica do acontecimento de Guernica e retendo nos olhos o dramatismo das imagens de Picasso.
Alexandre de Castro
31 JAN 2007
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