sexta-feira, 14 de abril de 2017

É urgente um poema…


É urgente um poema…

Encanto do meu canto...
Glicínia de um poema,
que ainda ninguém escreveu,
porque a "poeta" ultrapassa as barreiras
de todas as metáforas conhecidas
e de todas aquelas que ainda não foram inventadas.
E é urgente um poema!...
E tu serás sempre "poema",
na alma e na carne
na fronteira do sonho 
que me alimenta os dias,
mesmo antes de seres mulher inteira,
bela e exacta…

Alexandre de Castro

Lisboa, Abril 2017

2017 04 14

sábado, 1 de abril de 2017

Carl orff -Carmina Burana /Koninklijke Chorale Cæcilia


Quando o sentido das coisas é uma nuvem a arder em chamas

Quando o sentido das coisas é uma nuvem a arder em chamas, passo por aqui e deixo-me levar pelo encanto da música, na onda empolgante dos sons e das vozes, e desato os nós do pensamento, que fica à solta, sem qualquer freio. Descubro, então, que o amor é uma coisa complicada, porque há sempre uma surpresa em cada esquina da vida. É sempre igual e sempre diferente, seja ele trágico, romântico e até cómico, circular ou poliédrico, amor livre ou amor estável, de toda uma vida. Uma coisa é, certamente: é o ninho de todos afectos, se pretendermos defini-lo na sua amplitude universal e, numa outra dimensão, será aquele amor contagiante, que tem a sua máxima expressão física no beijo e no sexo.
Pois é, até aqui nada de novo, dirá o leitor. O problema está nas tempestades e nos terramotos, que deixam feridas profundas. É bem verdade, direi eu, mas isto também faz parte do amor, porque nada existe, sem o seu contrário.
E, depois, há os amores impossíveis, marcados pela condição e pela contradição. E, para estes, não existe antídoto.

Alexandre de Castro
2017 04 01

quinta-feira, 30 de março de 2017

É este o fulgor do instante…


É este o fulgor do instante…

Há rostos que se escondem no silêncio e na ausência
e eu apenas os posso ver através da minha cegueira.
É este o fulgor do instante,
quando o instante se revela em toda a sua plenitude.
É de ti, que há-de vir o último sopro de vida
que me liberte da escuridão dos dias…

Alexandre de Castro

Lisboa, Março de 2017

Ver também aqui.

O ziguezague da água _ Fotografia de Milú Cardoso (**)

O zeguezague da água _ Milú Cardoso

Captação oportuna de um belo e original efeito da Natureza, Natureza essa que está sempre a surpreender-nos.

(**) Título do Editor
Ver também aqui
2017 03 30

terça-feira, 28 de março de 2017

A grande noite do deserto _ Maria Azenha

A Tentação de Santo Antão _ Salvador Dali

A grande noite do deserto

Um segundo é suficiente para saltar fora
Ou ir à Gulbenkian ver o Almada ,o Lorca, o Cesariny
Tocar o anjo maldito da Memória
E abrir uma brecha nos viveiros do Poder.
Estou farta de corruptos,de cibernéticos, de tecnocratas
do Amor encontrado em marinheiros de fogo, em narcóticos democráticos
de ficheiros encriptados
no Medo,
no Terror!
Há Inaugurações de montras  com Montanhas ao pescoço,
e ar condicionado em gabinetes altamente presos,
e toda esta loucura procurando crianças e alfinetes em bombas.
Os núncios apostólicos do globo olham o mundo
através de sargetas, de swings de estrume com flores,
de ficheiros anónimos, de trapézios, de bonecos encriptados
que bebem copos e dançam com mulheres em noites seráficas.
Nietzsche pede socorro a todos os poetas torturados pela realidade!
Há um tratado alquimista escondido nos bolsos dos robots.
Há milhões de versos por fazer enrolados em mochilas de Rimbaud.
As epopeias do século XXI vertem enxofre e ouro.
Milhares de Criaturas saem do nada. Ocupam postos de trabalho em tigelas embotadas.
Seus olhos muito abertos e muito cerrados
Voltam-se para a direita e para a esquerda.
Dormem à hora programada com leite encriptado no telemóvel.
É preciso sacar unhas ao globo para compor música atómica!
Ele é uma metralhadora instalada em toda a parte. Em qualquer lugar.
Comemos carne e peixe ao almoço em grandes contentores,
Mastigamos bifes sintéticos, palitos de la Reine com aplicações nos semáforos.
É urgente gritar  contra a violência das cidades,
Puxar galáxias para baixo em estado de graça.
Minha alma precisa de encontrar uma árvore a sério
e com ela treinar os pulmões a cores.
Estou farta de genuflexões bondosas,de senhores da misericórdia,
de anjos com asas anunciando esperança e amor!
Sou da estirpe dos pobres, dos afogados, dos que sofrem calados,
dos biliões de vozes sem nome…
Isto é terrorismo em arranha-céus de dor!,
Terrorismo que reduz o indivíduo a um bocado de caca.
Os computadores atravessam o Tejo e outros rios da Terra,
Anunciam viagens de escravos de um lado para o outro.
São grandes transatlânticos do sofrimento em ferro, grandes filmes do crime
com pessoas que já não conhecem sonhos…
E vivem em grandes explosões demográficas.
Mozart caiu cedo demais na vala. Estava fora do século.
Há praças que se transverteram em campos-santos de gente anónima,
bandos metralhados por ordens  a qualquer dia e hora.
Em qualquer ponto do espaço as unhas dos astros ferraram-se no solo .
Vieram com Baudelaire para anunciar a catástrofe.
Vivemos em conglomerados de cidades embalsamadas em gelo e dor:
Múmias sempiternas com suas fardas de cimento, obedientemente cegas.
O século escreve o novo livro da história:
“A grande noite do deserto”


©maria azenha

***«»***

Um poema arrasador, brutal, altamente subversivo para o sistema das castas e para a nossa civilização carnavalesca e que ultrapassa todas as fronteiras poéticas, para se erguer como um violento e incisivo manifesto panfletário, capaz de corroer as torres de marfim do poder.
Alexandre de Castro
***«»***

Os melhores de 2016: poesia

Dezembro 29, 2016

A casa de ler no escuro, de Maria Azenha

A poesia dessa portuguesa de Coimbra chegou-me através da organização de uma das edições do caderno-revista 7 fases. E, depois, aconteceu de ler este livro editado no Brasil. Trata.se de uma poesia com dicção muito individual e atenta às imagens do mundo social. Numa conjuntura em que esse universo nos parece cruel, perigoso e uma prova definitiva de que o homem tem (an)dado errado no mundo, é possível ainda extrair, do acaso ou das situações mais invisíveis algum alento para o fim. A estética de Maria Azenha cumpre esse papel de ser uma lufada de ar numa existência árida.

In LETRAS IN.VERSO E RE.VERSO

***«»***

O livro de poemas, de Maria Azenha, A casa de ler no escuro, (editora Urutau), foi incluído, pela revista LETRAS IN.VERSO E RE.VERSO, na lista dos dez melhores livros de poesia, publicados no Brasil, em 2016.
Tive a honra de ter sido convidado pela autora a deixar um pequeno apontamento no respectivo prefácio, assim como receber das suas mãos um exemplar, com uma simpática dedicatória.
2017 03 28

sábado, 25 de março de 2017

Poema de Sónia M. _ [celebração de um regresso (*)]

O Beijo _ Gustav Klimt _ 1907 e 1908



Dar-te-ia uma noite clara
Isenta de gritos e no
Zelo das margens do rio 

Que te banha a alma, beijaria 
Um a um os teus medos. Por 
Entre a sede das mãos, escorreria 

A verdade que entregámos aos pássaros.
Instante de luz a ofuscar os dias. 
Nesga de loucura a guardar os sonhos. 
Deitaria às águas um verso branco.
Astro fecundo nos meus verdes olhos. 

Mistério encostado ao céu da boca do 
Encanto, com que envolves 

As minhas mãos vazias. 
Morresse a lonjura no abraço do verso.
Antes não fosses um destino 
Sem tempo. Pátria perdida... à qual nunca regresso. 

Sónia M 

(*) Nota do editor.

Amabilidade da autora.

***«»***
Que belo é este poema, que fala da "verdade que entregámos aos pássaros", do “Astro fecundo nos meus verdes olhos”, que tanto encantam e seduzem, do “Mistério encostado ao céu da boca do Encanto”, mas que arrasta a sombra negra de um pesadelo amargo: "Antes não fosses um destino/Sem tempo, Pátria perdida… à qual nunca regresso”.
Um poema que é um diamante. E não é pela sua intenção declarada, mas sim pela sua exigente construção metafórica e lexical. Há nele verdadeiras preciosidades poéticas, no jogo hábil das palavras e das metáforas, que só os grandes poetas conseguem exprimir..
2017 03 19

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

Nos destroços da demência e da memória…



Nos destroços da demência e da memória…

E eu, no meio da minha cegueira,
entre as linhas que nos separam,
digo-te esta mentira, que reclamas:
“já me esqueci de ti...
Nunca te amei, desde que te vi.
Nem as feridas eram verdadeiras,
nem os beijos ardiam nos meus lábios,
nem os poemas, que te dediquei, eram meus.
Tudo era falso”.
E, agora, nos destroços da demência e da memória,
sofro com a verdade, porque sempre te amei…

Alexandre de Castro
Fevereiro de 2017

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

Como tu dirias, meu querido Poeta _ Maria Azenha

Para os gregos antigos, os poetas eram aqueles que estavam mais próximos dos deuses


Como tu dirias, meu querido Poeta

No inverno vêem-se cães nas avenidas
que passeiam homens com trelas invisíveis.
E não sei porque fixo esta imagem que teima em perseguir-me.
Procuro desde o começo dar-lhe um sentido,
sem lençol nem cama nem moralismos.
( Apre! Estou constipada, já dei mais um espirro!)
Vejo nas ruas flores prisioneiras  em casas
e bancos de pedra onde se sentam, sem ninguém ver, beijos de neve…
Como tu dirias, meu querido Poeta,
que me ensinaste a ver e retirar a venda dos olhos,
,que me entregaste a chave dos mistérios,
,que bebeste à mais alta existência do nada,
,que cantaste a glória de vozes cansadas,
Tu,um vaso de néctar bebido por uma só Palavra,
numa só Hora…
Tu,as manhãs lisas do meu silêncio eterno,
Tu,a quem dedico estas linhas a partir de um precipício…simplesmente belo…
Tu, Tu, Tu…
“Feliz,o que sem ódio, se retira do mundo, apertando ao peito um amigo
e goza com ele o que os homens não sabem nem suspeitam,
o que atravessa na noite o labirinto do coração.”(*)
Ah,somos  crianças sentadas no passeio a jogar aos dados…
E nos damos visões,de graça…

 © maria azenha


(*) Goethe
3 de Janeiro de 2017


***«»***

Os poetas são os matemáticos
que desenham a curvatura do amor na esfera armilar.
Os poetas são os físicos
que melhor conhecem as leis da atracção universal
e os segredos dos astros.
São os alquimistas
que tudo transmudam em ouro e em prata.
São os únicos humanos
que os deuses imitam, para sobreviver.
Por isso, são imortais, na alma e no pensamento,
porque os seus poemas, levados pelo vento,
atravessam a espessura e a escuridão do Tempo.
Alexandre de Castro

***
Querida “poeta”: um poema magnífico, com um mistério para os poetas decifrarem.

sábado, 26 de novembro de 2016

Para Fidel Castro…




Para Fidel Castro…


As árvores ficaram despidas e nuas
quando a tua voz se calou na sombra da noite
e os astros incandescentes se apagaram
ouviram-se os pássaros pendurados nos alpendres
e um relâmpago riscou o céu
da Serra Maestra até Havana
a iluminar o caminho da glória
da tua marcha heróica e triunfal…

Agora, junto a tua voz à minha memória
e à memória da voz do companheiro Che Guevara,
o outro astro incandescente da nova aurora
o outro herói da gesta revolucionária
que acendeu em nós a chama da liberdade
e que morreu lutando pelo sonho que sonhou…
Hasta siempre, comandante Fidel Castro…

Alexandre de Castro

Lisboa, Novembro de 2016

domingo, 20 de novembro de 2016

Agarrei o beijo…



Agarrei o beijo…

agarrei o beijo
na volatilidade do ar
e beijei o beijo
como se te beijasse a ti

soprado pelos teus lábios
vinha no enlevo do carinho
e aqueceu o que em mim já estava frio

e depois voou
levando o meu beijo
invertendo o caminho
para chegar ao fim do seu destino
um destino que será o meu…

Alexandre de Castro


Lisboa, Novembro de 2016


sexta-feira, 18 de novembro de 2016

Homo erectus



Homo erectus

Foi através da mão
que ganhaste o pensamento, oh Homem!...
Lá para trás do tempo da escuridão
enquanto nascia a aurora
e muito depois de seres bípede
a habitar o chão…

Não sei se o milagre
pertence a Deus ou à Natureza
e se o mérito de começares a articular os sons
te pertence por inteiro
e é só teu…

Nada iguala esse enorme feito
de te libertares do mundo irracional
e ganhares o mundo da “razão”.

Ficou escrito nas estrelas
que nascera a Humanidade
e o Tempo começou a ser contado
pelo ritmo dos teus passos
e pelos inventos das tuas mãos…

Disseram os anjos, entre si, que começara a civilização…

Alexandre de Castro

Lisboa, Novembro de 2016



terça-feira, 18 de outubro de 2016

Máscara carnavalesca…



Máscara carnavalesca…

Esqueci-me do meu fato de fantasias
neste Carnaval em que me envolvo.
Não afivelei a máscara
ao rosto de todos os dias…

E como eu me sentiria estranho
no meio daquela gente mascarada!
Não me reconheceria no meu rosto verdadeiro…

Todos olhavam para mim
por certo revoltados
por eu usar a máscara
com que amanheço todos os dias.

Máscara real
colada à minha pele e aos meus sentidos
que se ri na alegria
e que chora nos prantos consentidos.

Máscara que faço e desfaço, a meu belo prazer
nas contas que eu faço com a vida…

Alexandre de Castro

Lisboa, s/ data
(Provavelmente do início da década de oitenta, do século passado).

Recuperado do esquecimento em Outubro de 2016. Foi um dos meus primeiros poemas.

domingo, 14 de agosto de 2016

POEMA: DESCRIÇÃO DA GUERRA EM GUERNICA _ Carlos de Oliveira [seguido por uma nota crítica].


DESCRIÇÃO DA GUERRA EM GUERNICA

I

Entra pela janela
o anjo camponês;
com a terceira luz na mão;
minucioso, habituado
aos interiores do cereal,
aos utensílios
que dormem na fuligem;
os seus olhos rurais
não compreendem bem os símbolos
desta colheita: hélices,
motores furiosos;
e estende mais o braço; planta
no ar, como uma árvore,
a chama do candeeiro.


II

As outras duas luzes
são lisas, ofuscantes;
lembram a cal, o zinco branco
nas pedreiras;
ou nos umbrais
de cantaria aparelhada; bruscamente;
a arder; há o mesmo
branco na lâmpada do tecto;
o mesmo zinco
nas máquinas que voam
fabricando o incêndio; e assim,
por toda a parte,
a mesma cal mecânica
vibra os seus cutelos.


III

Ao alto; à esquerda;
onde aparece a linha da garganta,
 a curva distendida como
o gráfico dum grito;
o som é impossível; impede-o pelo menos
o animal fumegante;
com o peso das patas, com os longos
músculos negros; sem esquecer
o sal silencioso
no outro coração:
por cima dele; inútil; a mão desta
mulher de joelhos
entre as pernas do touro. 


IV

Em baixo, contra o chão
de tijolo queimado,
os fragmentos de uma estátua;
ou o construtor da casa
já sem fio de prumo,
barro, sestas pobres? Quem
tenta salvar o dia,
o seu resíduo
de gente e poucos bens? Opor
à química da guerra,
aos reagentes dissolvendo
a construção, as traves,
este gládio,
esta palavra arcaica?


V

Mesa, madeira posta
próximo dos homens: pelo corte
da plaina,
a lixa ríspida,
a cera sobre o betume, os nós;
e dedos tacteando
as últimas rugosidades;
morosamente; com amor
do carpinteiro ao objecto
que nasceu
para viver na casa;
no sítio destinada há muito;
como se fosse, quase,
uma criança da família.


VI

O pássaro; a sua anatomia
rápida; forma cheia de pressa,
que se condensa
apenas o bastante
para ser visível no céu,
sem o ferir;
modelo de outros voos: nuvens;
e vento leve, folhas;
agora, atónito, abre as asas
no deserto da mesa;
tenta gritar às falsas aves
que a morte é diferente:
cruzar o céu com a suavidade
dum rumor a sumir-se.


VII

Cavalo; reprodutor
de luz nos prados; quando
respira, os brônquios;
dois frémitos de soro; exalam
essa névoa
que o primeiro sol transforma
muma crina trémula
sobre pastos e éguas; mas aqui
marcou-o o ferro
dos lavradores que o anjo ignora;
e endureceu-o de tal modo
que se entrega;
como as bestas bíblicas;
ao tétano ao furor.


VIII

Outra mulher: o susto
a entrar no pesadelo;
oprime-a o ar; e cada passo
é apenas peso: seios
donde os mamilos pendem,
gotas duras
de leite e medo; quase pedras;
memória tropeçando
em árvores, parentes,
num descampado vagaroso;
e amor também:
espécie de peso que produz
por dentro da mulher
os mesmos passos densos.


IX

Casas desidratadas
no alto forno; e olhando-as,
momentos antes de ruírem,
o anjo desolado
pensa: entre detritos
sem nenhum cerne ou água,
como anunciar
outra vez o milagre das salas;
dos quartos; crescendo cisco
a cisco, filho a filho?
as máquinas estranhas,
os motores com sede, nem sequer
o espírito das minhas casas;
evaporaram-no apenas.


X

O incêndio desce;
do canto superior direito;
sobre os sótãos,
os degraus das escadas
a oscilar;
hélices, vibrações, percutem os alicerces;
e o fogo, veloz agora, fende-os, desmorona
toda a arquitectura;
as paredes áridas desabam
mas o seu desenho
sobrevive no ar; sustém-no
a terceira mulher; a última; com os braços
erguidos; com o suor da estrela
tatuada na testa.

Carlos de Oliveira
(1921-1981) 

***«»***
Carlos de Oliveira, escritor e poeta neo-realista, escreveu este vigoroso poema, ancorando-se nas assombradas figuras da célebre tela de Picasso, para descrever a tragédia do massacre de Guernica, na tarde de 26 de Abril de 1937, perpetrado pela Legião Condor, corpo militar este constituído por várias esquadrilhas de modernos aviões alemães e respectivos tripulantes, e que Hitler enviou em auxílio de Franco, logo no início da Guerra Civil de Espanha.

Iniciou-se aqui uma nova fase na estratégia da guerra, a fase dos bombardeamentos intensivos de populações civis, os chamados bombardeamentos de saturação, conforme a nomenclatura usada pelos estrategas de Goering, e que tiveram trágica continuidade, logo a seguir, na II Guerra Mundial.

O poema de Carlos de Oliveira é um poema consistente, pesado no ritmo e milimetricamente preciso no plano descritivo do tema, obedecendo assim ao cânone da corrente literária neo-realista. 

Ler o poema, tendo a memória fixada na figuração do quadro de Picasso, permite atingir o cume da percepção poética, quer captando a violência das palavras (“motores com sede”,  “lixa ríspida”, “casas desidratadas”, “cal mecânica”, “sal silencioso”, “o gráfico de um grito”) , quer visionando o horror da barbárie perpetrada a sangue frio sobre um povo pacífico.

É através da tela de Picasso, que Carlos Oliveira exibe esse horror, plasmado em palavras, fazendo desfilar o camponês “habituado aos interiores do cereal", mas atónito, pois “os seus olhos rurais/não compreendem bem os símbolos/desta colheita: hélices/motores furiosos”; o construtor de casas “já sem fio de prumo” e o carpinteiro que talhou a mesa “com amor… ao objecto que nasceu/para viver na casa”. E que dizer do cavalo ferido e daquela mulher com “o susto a entrar no pesadelo” e com “seios/donde os mamilos pendem,/gotas duras/de leite e medo; quase pedras”.

Este processo de descrever um acontecimento, socorrendo-se das figuras pictóricas, tal como acontece neste poema, também foi ensaiado em prosa, com êxito, por Saramago, no capítulo introdutório do “Evangelho segundo Jesus Cristo”, descrevendo e inserindo literariamente, segundo a tradição bíblica, as personagens que presenciaram a cena da crucificação, e tal como aparecem figuradas num óleo renascentista.

Este é um poema de antologia, magnífico na forma e na palavra, belo nas imagens e duro no protesto e na indignação. É de guardar para reler. Mas, ele só pode ser entendido inteiramente, conhecendo a moldura histórica do acontecimento de Guernica e retendo nos olhos o dramatismo das imagens de Picasso.
Alexandre de Castro  
31 JAN 2007