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domingo, 14 de agosto de 2016

Guernica ou o manifesto político de P. Picasso _ por Ângela Veríssimo


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Guernica
ou o manifesto político de P. Picasso

por Ângela Veríssimo


Um dos quadros que melhor transmite todo o desespero advindo da guerra é o intemporal Guernica de Pablo Picasso, fazendo plena justiça à expressão "uma imagem vale por mil palavras". No início de mais um ano, quase no fim do milénio, aqui neste cantinho do Mundo Ocidental, é tempo de pensar no outro Mundo, cujos povos vivem em palco de guerra, e para os quais nada resta senão esperar por dias de paz.

Picasso não tinha sido muito afectado pela I Guerra Mundial e só com a Guerra Civil Espanhola se interessou por política, tornando-se vivamente solidário com os republicanos. As fotografias que aparecem na imprensa no ínicio de Maio de 1937 relativas ao bombardeamento de Guernica (antiga capital do País Basco) em 36 de Abril tocam-no profundamente. Passado pouco mais de um mês e após 45 estudos preliminares, sai do seu atelier de Paris o painél Guernica (3.50x7.82 m) para ser colocado na frontaria do pavilhão espanhol da Exposição de Paris de 1937 dedicada ao progresso e à paz.

Rapidamente o painél se transforma num objecto de protesto e denúncia contra a violência, a guerra e a barbárie: "O quadro converte-se numa manifestação da cultura na luta política, ou melhor dizendo, no símbolo da cultura que se opõe à violência: Picasso opõe a criação do artista à destruição da guerra"(1).

Donde vem a genial monumentalidade que faz de Guernica uma obra tão singular? Na minha opinião, o seu poder advém da carga emotiva que possui. Efectivamente, o painél não representa o próprio acontecimento, o bombardeamento de Guernica, mas "evoca, por uma série de poderosas imagens, a agonia da guerra total"(2), chegando a constituir uma visão profética da desgraça da guerra que nos ameaça hoje e que nos ameaçará no próximo século que segundo S. Huntington "se caracterizará por muitos conflitos de pequenas dimensões"(3), devido em grande parte à existência, na actualidade, de mais de meia centena de estados fragéis e desintegrados. De facto, a destruição de Guernica foi a primeira demonstração da técnica de bombardeamentos de saturação, mais tarde empregue na II Guerra. Picasso já em fase pós-cubista, consegue aqui tornar o acto pictórico na narração objectiva da ideia que formou perante o acontecimento e da emoção que sentiu. Com ele,"a pintura carrega consigo o seu património de experiências emocionais" deixando de ser "um ideal abstracto de beleza formal ou de representação lírica da aparência vísivel"2. Citando o artista: "Quando alguém deseja exprimir a guerra, pode achar que é mais elegante e literário representá-la por um arco e uma flecha, que de facto, são estéticamente mais belos, mas quanto a mim (...) utilizaria uma metralhadora"(4).

Tecnicamente tudo em Guernica contribui para a transmissão de emoções avassaladoras a começar pelo uso da técnica de "collage" de que Picasso e Braque tinham sido pioneiros em 1911-12 e que o primeiro aqui retoma, já não "colando" objectos na superfície do quadro mas pintando como se fizesse colagens; com este Cubismo de Colagens cria-se um conceito de espaço pictórico radicalmente novo não criado por nenhum artifício ilusionista mas pela sobreposição dos "recortes" planos, neste caso especifíco em tons de preto e cinzento atravessados por claridades brancas e amareladas, numa total ausência da cor, inexoravelmente evocativa da morte.

A par disso, Picasso recorre a formas dramáticas, violentas, a fragmentações e metamorfoses anatómicas que se por um lado criam figuras que não aderem a nenhum modelo "real", por outro exprimem toda a realidade e agonia da dor insuportável. A comprovar isso atente-se nas várias figuras que o pintor representa neste quadro que aparentemente livre, obedece contudo a um rigoroso esquema em termos de construção (imagine-se a tela dividida em 4 rectângulos, com um triângulo cujo vértice corresponde ao eixo vertical que a divide em duas partes iguais): a mãe chorando a morte do filho (descendentes da Pietà...) e o ameaçador touro de cabeça humana, no 1º rectângulo, o "olho" luminoso do candeeiro que derrama uma luz inóspita (no 2º), a mulher com a lâmpada na mão recordando-nos a Estátua da Liberdade (no 3º) e o homem que em desespero levanta os braços ao céu (no 4º). Repare-se ainda no cadáver empunhando a espada partida (um emblema da resistência heróica) e o cavalo ferido que aparecem no referido triângulo. O cavalo é à semelhança do touro uma figura saída da mitologia espanhola; representa o povo que agoniza sob o jugo opressor do touro, símbolo da brutalidade, das forças do mal. 
Hoje, olhar para Guernica é partilhar o horror que Picasso sentiu há 59 anos perante as imagens da destruição da povoação. Por isso, aqui vai um desejo para o novo ano: que em 1996 tratados como os de Dayton não fiquem pelo papel e que haja sempre um pensamento na mente dos homens: GUERNICA NUNCA MAIS!


(1) in "Entender a Pintura", suplemento nº 2 da revista "Artes & Leilões", tradução de Margarida Viegas. (continuar) 
(2) H. W. JANSON: "História de Arte", 4ª Edição, Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa 1989. (continuar)
(3) CARDOSO,José: "O Terror Supremo", REVISTA do Expresso, 23 de Dezembro de 1995. (continuar) 
(4) SECKLER, J.:"New Masses", 3 de Julho de 1945, citado em "Entender a Pintura", suplemento nº 2 da revista "Artes & Leilões", tradução de Margarida Viegas


domingo, 29 de maio de 2016

A Criação de Adão_ Michelangelo

´A Criação de Adão' (1510) _ Michelangelo

Há uma força descomunal nesta composição pictórica, de Michelangelo, que se desprende da figura divina e que a concentra por inteiro, tendo Adão, que a recebe, apenas uma postura passiva.

Trata-se de uma das grandes criações do génio humano, no conjunto das Letras e das Artes, às quais se juntam a Eneida, de Virgílio, a Ilíada, de Homero, O Velho Testamento, D. Quixote, de Cervantes, Hamlet, de Shakespeare, A Divina Comédia, de Dante,.Os Lusíadas, de Camões, Cem Anos de Solidão, de Gabriel Garcia Marquez, Memorial do Convento, de Saramago, as Pirâmides do Egipto, a Mona Lisa, de Leonardo de Vince, Guernica, de Picasso, A Tentação de Santo António, de Dali, a 5ª Sinfonia de Beethoven, o Taj Mahal, na Índia, a Grande Muralha, na China, a Sagrada Família, de Gaudi, a Catedral de Brasília, de Oscar Niemeyer e os poemas Tabacaria, Poema em linha recta, O Guardador de rebanhos e Ode marítima, de Fernando Pessoa (entre outros). 

Quem matar a sede e a fome nestes monumentais tesouros da Humanidade pode dizer que conviveu com os deuses do Olimpo.

sábado, 30 de janeiro de 2016

Salvador Dali


Salvador Dali | A Tentação de Santo António
Salvador Dali | A Mão
Salvador Dali | A Rosa
Dali | A Última Ceia
Dali | Alucinação Parcial _ 6 Aparições de Lenin sobre o piano 
Dali | Galetea
Dali | Metamorfose de Narciso
Dali | O Enigma sem Fim
Dali | O Grande Masturbador
Dali | O Sonho
Dali | Ovos Estrelado sem o Prato
Dali | Persistência de Memória
Dali | São João Cristo
***
Salvador Dali, um dos maiores pintores de todos os tempos, perseguiu, durante todo o seu percurso artístico, a ideia da transgressão, quer a transgressão temática, desconstruindo as narrativas mitológicas e as narrativas do mundo real, tal como as interpretamos, quer a transgressão formal, ao nível do estilo pictórico e ao nível da figuração, optando por agigantar até ao limite as personagens e todos os elementos físicos das suas composições. Repare-se, por exemplo, no efeito cinético, conseguido na pintura "A Tentação de Santo António", em que o cavalo, desencabrestado, parece querer saltar para fora da tela.  
Dali, tal como Picasso, inaugurou um novo conceito de pintura, que eu designo de surrealismo do fantástico ou, segundo alguns autores, do surrealismo metafórico. Também poderíamos dizer que Dali trabalhou na tela a alucinação, a loucura, a excentricidade e o assombro, numa tentativa de intimidar o espectador, obrigando-o a ser mais activo na observação e na interpretação da obra, já que, em relação ao passado, olhava-se para uma pintura, de uma forma mais passiva e tranquila, tal como se se observasse uma paisagem. Perante uma pintura de Dali, ninguém fica indiferente. Pela intensidade das cores e pela distorção e gigantismo das formas, e, também, pelo uso do plano da profundidade, que dá a sensação de não ter fim, Dali impressiona e cria tensões emocionais nos espectadores. Ele não é o pintor da estética harmoniosa. Na maioria dos seus trabalhos emerge uma tensão de violência e uma sensação de desequilíbrio, à beira do abismo.
Alexandre de Castro   

segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

Illusion – Henry Brown Fuller 1895

Illusion – Henry Brown Fuller 1895

Nem será tanto a glorificação do esplendor do nu, aquilo que o autor nos propõe. Talvez o mais importante, em termos de técnica pictórica, seja a subtil precisão da captação do movimento do “instante”, entre a formulação gestual de um pedido e a expressão terna da sua recusa. É esta impressão da ideia de movimento, a animar duas estáticas figuras humanas, que a pintura ganha grandeza e notoriedade. Tracemos várias rectas paralelas imaginárias, a partir do ombro e da cabeça da criança, até à esfera translúcida e até à cabeça da mulher, e aí descobriremos o “truque” do autor. É nesse espaço que se concentra a força da representação do movimento com que a pintura ganha vida. É este, pois, o ponto central da pintura, o seu eixo estruturante, uma pintura que se enquadra no cânone da corrente artística do Realismo.
Para provocar um maior deslumbramento no espectador, mas assumindo o risco de não poder errar na descrição anatómica figurativa, o que seria fatal, o autor opta por preencher todo o iluminado espaço do primeiro plano com as duas figuras humanas, deixando difuso e escurecido, intencionalmente, o plano de fundo. O efeito, em termos de conjunto, é notável. O nu atinge o seu máximo esplendor, ao mesmo tempo que o espectador é envolvido num ambiente aristocrático, aqui identificado e sinalizado, de uma forma discreta, pelo mármore da balaustrada e do peitoril da varanda.
Em 1895, data da execução desta pintura, a corrente do Realismo, na literatura e nas artes, aproximava-se do fim. A seguir, iria assistir-se à grande revolução do modernismo, nas suas múltiplas expressões, em que se abandona a ideia da representação e da captação do mundo real. As artes passarão a ser comandadas pela “febril” e criativa imaginação dos seus autores e pela descoberta de novas formas e de novas leituras.

terça-feira, 10 de novembro de 2015

Pintura: Amadeo Modiglian _ nu deitado

Amadeo Modiglian (i1884 1920) _ nu deitado (1917-1918)

O diáfano e sublime  encantamento do nu!...
O perfume de um corpo que se entrega
à liberdade do desejo!...
Tudo são incandescências nesta pintura
como se uma fogueira fosse ateada 
por um sopro divino!...
***
Recentemente, esta pintura de Modaglian foi leiloada em Nova Iorque, pela Christie's, pelo valor de 170,4 milhões de dólares. Trata-se da segunda transacção mais cara neste segmento de mercado, ficando um pouco abaixo da "Les femmes d' Arger", de Picasso, que foi vendida em leilão por 179,4 milhões de dólares.   
A pintura "Nu deitado" foi arrematada por um chinês, um multimilionário que foi condutor de táxis. Não sei se o homem é um apaixonado pela pintura ou se, apenas, é um negociante de obras de arte.
Quando Modaglian expôs, pela primeira vez, esta pintura, em Paris, houve manifestações de protesto à porta da galeria, de tal violência, que obrigou a polícia a intervir e a encerrar a exposição. Que diferença abissal nos separa desses tempos de chumbo, em que imperava uma moral burguesa impiedosa, arrogante, justiceira e castradora!...